ROSA DOS VENTOS

Que o Chico Buarque é um gênio todo mundo já sabe, portanto acho que seria dispensável gastar muitas linhas neste blog para chegar à uma conclusão que quase todos já sabem de antemão. Contudo, ao (re)ouvir no último fim de semana a canção que dá título a este post, não pude me negar a escrever umas linhas sobre a letra desta música e compartilhar a admiração e tamanha comoção que sinto ao ouví-la. De antemão digo que jamais deixo de me perguntar como é que esse cara consegue compor letras tão significativas e musicá-las de modo tão melódico e harmônico com suas letras? É um fenômeno!
Composta em 1969, Rosa dos Ventos é uma letra onde pode-se perceber claramente o momento em que foi escrita. Cheia da tensão imposta pela ditadura militar que vinha desde 64, que àquela altura estava ainda mais dura, Chico parte para o ataque acusando os militares de trazer tempos trágicos e pálidos que fazia com que a gente caminhasse pelas trevas, murmurando pelas pregas e tirando leite das pedras somente vendo e esperando o tempo correr, sem nada poder fazer. Apesar disso, Chico nutria a esperança de que haveria de chegar o momento em que essa gente, o povo, não suportando mais essa vida amarga imposta pelos ditadores, se revoltaria e nem a prudência dos sábios poderia conter o sorriso e a paixão que haveria de os libertar.
Na parte mais bela da música, em minha humilde opinião, Chico associa à essa tão desejada revolta popular, a imagem da pororoca que, nascendo das calmas águas doces, quando põem-se a mover, torna-se incontrolável inundado o mar de água doce. Lindíssima a associação que ele faz da ditadura com a amargura do mar e do povo com a água doce. Mais do que isso, linda a imagem que ele cria de que, tal qual uma pororoca amazônica - que surge de águas calmas, zanga-se incontrolável, enche o leito dos rios e inunda o mar de água doce amainando a amargura do mar - o povo haveria de se revoltar, incontrolável, acabando com a amargura daqueles tempos.
Falar mais o quê?
ROSA DOS VENTOS Chico Buarque
E do amor gritou-se o escândalo Do medo criou-se o trágico No rosto pintou-se o pálido E não rolou uma lágrima Nem uma lástima para socorrer E na gente deu o hábito De caminhar pelas trevas De murmurar entre as pregas De tirar leite das pedras De ver o tempo correr Mas sob o sono dos séculos Amanheceu o espetáculo Como uma chuva de pétalas Como se o céu vendo as penas Morresse de pena E chovesse o perdão E a prudência dos sábios Nem ousou conter nos lábios O sorriso e a paixão
Pois transbordando de flores A calma dos lagos zangou-se A rosa-dos-ventos danou-se O leito do rio fartou-se E inundou de água doce A amargura do mar Numa enchente amazônica Numa explosão atlântica E a multidão vendo em pânico E a multidão vendo atônita Ainda que tarde O seu despertar
Escrito por Roger às 16h50
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