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A QUESTÃO DA HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE
Aqui vai mais um post ainda sob impacto do texto machadiano. Após a leitura recente de uma coletânea de contos classificados como 'filosóficos', encontrei um que mostrou uma preocupação de Machado que, sinceramente, eu não esperava encontrar. Escrito em 1887 e publicado na Gazeta de Notícias sob o título de 'Eterno', Machado trata neste conto de um assunto ainda muito caro aos historiadores de hoje, que é o problema da História do Presente. Apesar de não ser este o foco do seu conto, que se dedica à questão do tempo e da subjetividade (além da subjetividade do tempo), em um determinado trecho o narrador da história tenta se desculpar pela indiscrição de escrever suas memórias e citar as pessoas que ainda estão vivas e podem sentir-se embaraçadas com o seu texto. A desculpa do narrador é que já se passaram 27 anos desde que os fatos aconteceram e que o tempo se encarregará de transformar as indiscretas memórias em documento histórico. Vejam o trecho que ao qual me refiro abaixo:
Trecho extraído de 'ETERNO' em Contos de Machado de Assis: Filosofia (vol. 3) Rio de Janeiro: Record, 2008. Pgs. 177-190
"Confio do tempo, que é um insigne alquimista. Dá-se lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes; quando menos em cascalho. Assim é que, se um homem de Estado escrever e publicar as suas memórias, tão sem escrúpulo, que lhes não falte nada, nem confidências pessoais, nem segredos do governo, nem até amores particularíssimos e inconfessáveis, verá que escândalo levanta o livro. Dirão, e dirão bem, que o autor é um cínico, indigno dos homens que confiaram nele e das mulheres que o amaram. Clamor sincero e legítimo, porque o caráter público impõe muitos resguardos; os bons costumes e o próprio respeito às mulheres amadas constrangem ao silêncio...
... Mas deixai pingar os anos na cuba de um século. Cheio o século, passa o livro a documento histórico, psicológico anedótico. Hão de lê-lo a frio; estudar-se-á nele a vida íntima do nosso tempo, a maneira de amar, a de compor os ministérios e deitá-los abaixo, se as mulheres eram mais animosas que dissimuladas, como é que se faziam eleições e galanteios, se eram usados xales ou capas, que veículos tínhamos, se os relógios eram trazidos à direita ou à esquerda, e multidão de coisas interessantes para a noss história pública e íntima."
Escrito por Roger às 22h33
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QUE É O MUNDO?
Agora que já passou o frisson dos 100 anos da morte de nosso maior escritor, acho que posso fazer uma citação de mais um conto GENIAL dele. O conto chama-se "Idéias de Canário" e foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias em 15-11-1895 com o título de "Que é o Mundo?". O conto narra a história fantastica de um homem que encontra um canário numa loja de belchior (brechó) e, desde seu primeiro encontro, passa a travar um diálogo com o mesmo que passa a descrever o que é o mundo a partir de seu ponto de vista e em diferentes situações. Logo no primeiro encontro, a definição que o canário dá ao professor é:
"O mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira." Depois ele vai dando outras definições e é aí que está o encanto e o segredo do conto: o fato de a percepção da realidade ser subjetiva, isto é, depender não apenas dos olhos do observador, mas também de sua situação de momento. Assim, não há uma única realidade, nem mesmo uma para cada pessoa/animal, mas várias, durante uma única vida. É isso aí, é Machadão seguindo a linha de Descartes e fazendo a Matrix mesmo antes da Matrix. Quem quiser ler o conto, aí vai o link: http://www.releituras.com/machadodeassis_canario.asp
Escrito por Roger às 00h38
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Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias
Com todo o justo sucesso do Curioso Caso de Benjamin Button nos cinemas, resolvi comprar o livro recém reeditado e lançado pela José Olympio Seis Contos da Era do Jazz e Outras Histórias, de F. Scott Fitzgerald. Para os desavisados, este é o livro onde saiu originalmente o conto O Curioso Caso de Benjamin Button que deu origem ao filme homônimo estrelado por Brad Pitt.
Minha curiosidade era tamanha que, logo após comprar o livro e chegar em casa, já fui ler o conto e verificar se ele era mesmo tão bacana quanto o filme o fazia parecer. Para minha surpresa, e acho que esta é a primeira vez que isso acontece, devo admitir que o filme é muito melhor que a obra literária. Ao que parece, o roteirista do filme aproveitou apenas o nome do personagem e a idéia central do conto para fazer a versão cinematográfica, no mais, as histórias são completamente diferentes. Até mesmo o período em que ocorrem, o nascimento de Button, as paixões de sua vida, enfim, tudo, é muito diferente. O conto além de fantástico e cômico, tem também um tom irônico/sarcástico, mas me pareceu bem menos profundo do que o filme. Este sim, além de ser, como dizem, uma fabula sobre o tempo, nos faz refletir sobre temas como as oportunidades perdidas, o arrependimento pela não ação e otras cositas más. A quem não viu o filme, recomendo-o fortemente. Aproveitem e levem um lenço para enxugar as lágrimas que, mesmo sem querer, acabam escapando no decorrer do filme. A quem está curioso para ler o conto, também recomendo-o, mas com estas ressalvas. Seria melhor ler o conto primeiro para ver o filme em seguida, caso contrário a decepção pode parecer ainda maior. PS: Saiu também uma versão do Curioso Caso de Benjamin Button em quadrinhos. Essa versão é bem fiel ao conto literário e não deixa nada a desejar a esta. Àqueles que preferem quadrinhos, acho melhor ver o conto através deles, pois ali ele ganha uma roupagem mais atraente do que o conto em sua versão puramente literária.
Escrito por Roger às 03h13
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Segunda é dia de Roger na Folha
Pois é, nessa segunda-feira saiu mais um comentário meu na seção Painel do Leitor na Folha de S.Paulo. Desse jeito vou me acostumar e pedir mais espaço para ter uma coluna só minha.  Leitor do Perfect Sense leu primeiro, já que o publiquei originalmente aqui antes de enviá-lo a Folha.
Escrito por Roger às 03h11
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BARBÁRIE
O Gilberto Dimenstein deu destaque em sua coluna dominical na Folha de S.Paulo que3.000 professores tiraram nota zero no teste aplicado pela Secretaria Estadual da Educação de São Paulo para medir o nível de conhecimento sobre o que eles ensinam em sala de aula. A prova foi realizada por 214 mil professores, dos quais apenas 111 tiraram a nota máxima. Ainda não se fez uma tabulação, mas se estima que cerca de metade ficou abaixo da nota cinco. A questão não se resolve apenas ao apontar o óbvio ululuante que é o absurdo da situação, já velha conhecida de todos: a falta de preparo do professor das escolas públicas. Cabe a todos na sociedade, em especial a esses jornalistas que acompanham a educação mais de perto, investigar como o governo do Estado de São Paulo vem agindo para mudar a situação e cobrar das autoridades atitudes e medidas para reverter o quadro. Nos últimos 12 anos de governo tucano não vejo nenhuma ação eficaz do governo para com os professores do estado visando combater essa nefasta realidade. Infelizmente!
Escrito por Roger às 17h04
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