INTELIGÊNCIA E AFETO TAMBÉM NA HISTÓRIA

Ontem enviei um email à folha e ao colonista Jorge Coli arabenizando-os pelo texto Inteligência e Afeto publicado neste último domingo no Caderno Mais da Folha. Como aluno de graduação do curso de História da USP, afirmo que o mesmo processo descrito por ele para os cursos de Letras está se dando com outros cursos universitários do nosso país, como é o caso do curso de História. Todos os dias vejo alunos que sairão deste curso sem jamais terem lido completamente obras referenciais dos principais autores da nossa história (Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado Jr.), ou da história mundial (Marc Bloch, Fernand Braudel, Jacques Le Goff, Eric Hobsbawn e outros). Lerão, sim, um ou alguns capítulos de uma ou outra obra destes autores, e não por afeto, mas por estes serem indicados pelos professores na bibliografia obrigatória do curso. 
 
Além de desestimulada, cada vez mais o tempo necessário para a leitura interessada tem ficado escasso. Se é certo que um dos problemas deve-se ao fato de muitos alunos trabalharem enquanto estão se graduando, também contribui para essa "falta de tempo" o fato de muitos alunos serem incentivados a buscar, precocemente, uma leitura mais específica em torno do tema que pretendem seguir carreira nas próximas fases de sua vida acadêmica (mestrado e doutorado). Cada vez mais alunos do 3o. e 4o. ano da graduação são vistos pelos corredores formulando as bases dos seus projetos de mestrado ao invés de seguir na leitura básica em função de uma formação mais sólida.
 
Entendo que a velocidade com que se pretende titular novos pesquisadores, talvez por pressão da legislação vigente, com suas metas e notas baseadas na quantidade de pesquisas entregues pelas universidades, têm substituído uma formação sólida e baseada no prazer por outra muito menos teórica e embasada, voltada apenas a atender essa legislação que mede quantitativamente a produção acadêmica. Como bem disse Coli, todo este processo acaba por esterelizar o prazer da leitura. Pior, acabam diminuindo o conhecimento e capacidade analítica das nossas próximas gerações de historiadores, já que "apenas essa frequentação [dos livros] conduz ao saber mais profundo, em grande parte intuitivo e silencioso."

Para ter uma ideia mais completa do que estou falando, clique aqui para conferir a coluna deste último domingo de Jorge Coli na Folha de S.Paulo.



Escrito por Roger às 12h27
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